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Poema sofrido

Sozinho, com pés descalços
Sobre o chão gelado do meu quarto
Interminável, em seus pequenos cantos
Carentes de quem os dê sentido.

Para além das janelas
Os prédios se estendem
Sob a tutela das nuvens
Pesadamente cinzentas

Num fenômeno quase astral
Ela cobre em um quase abraço
Que por pouco se completa
No espaço entre nós dois –

No instante decisivo
Que precede o inevitável
Nossos olhos se tocaram
Com a leveza do banal

Mas sequestrado
Pelo peso do real
Não restou mais do que
O não-choque entre dois corpos

E ela se quebrou inteira.
Se fez chuva
De pequenos pedaços
De existência.

Com a melancolia conformada
Dos dias que vem e vão
Vi minha vista se velar
Sobre o mundo que me cerca

Passo a passo afinei minha audição
Para a sutileza de suas gotas
Explodindo sobre o acaso.

Distante, uma delas
Toca meu labio e escorre pelos dentes
Fazendo caminho até as papilas

Do ponto de onde irradia
A leveza de seu sabor
Sinto tudo que se fez em mim

E tudo se desfaz num sopro
Sobre um dente-de-leão

Poema com umas metáforas de bichos (e uma trilha no final)

Estou longe de ser um gato
Senhor do charme ardiloso
Dos olhares curvilíneos e
Intenções felinas

Muito longe de ser uma águia
Divina e austera nos picos
Acima de todas nuvens
Onde paira toda a nobreza

Mas do chão, não me julgo tão baixo
Não me enxergo rato que rasteja
Indetectável pelos becos escuros
Espalhando zoonoses afetivas

Talvez um peixe, que se afoga em si?
Uma girafa, que acabou corcunda?
Não respiro, sou amor estático
Não me curvo, sou amor teimoso

Mas me rendo ao primeiro par de olhos
Que indeciso como andorinha
Tem medo de olhar pra dentro
E foge sempre quando chega a hora

Pelo primeiro casal de mãos
Com o esmalte corroído pelos dentes
Que se acomodam tímidos, como joaninhas
Num sorriso meio que quase indecifrável

Vai ver por isso me vejo assim
Como um cachorro vira-lata
Que é do mundo sem ser de ninguém
Nem quando é muito mais do que ninguém

Chegando e indo quando entendo
Voltando sempre por saudade
Ou por fome ou por medo ou por prazer
Em investir mais do meu tempo em vida

Sabendo que não deixei mais
E nem levei mais
Do que uma dúzia de boas memórias,
Sorrisos e lágrimas justificados

E dois olhos que acordam juntos
Para a glória de uma manhã cansada

(ao som de Iron and Wine – Fever Dream

Poema sobre o medo de ser dois

Se do silêncio quero caos
Se da calmaria quero tormenta
Se da confiaça quero incerteza
Se do carinho prevejo o escárnio

O que desejo do nosso amor?

Se da beleza me resta o medo
Do arco-íris a tempestade
Se do vício me brotam flores
E do rio me faço sal

O que me sobra do nosso amor?

Quando do riso só restam dentes
Dos ouvidos simples ruídos
Dos pés o frio sozinho
Da vida uma casca de noz

O que sobra do que sou?

Poema meio medroso

Um balé indeciso
Sobre um fio de vidro
Entre dois abismos
E um pedacinho de
Terra firme que
Completa tudo

Passo após passo
Dia após dia

Seguimos nessa dinâmica
Tateando sobre o nada
Em busca de segurança
Que insiste em não chegar

Pra onde vai?
Pra onde vamos?
Será que vou?
Será que somos?

Muita expectativa
Pra pouca produtividade –
Afetiva, que fique claro

Vou tentar o possível.
Me manter estático
Sobre o fio de vidro
Entre dois abismos.

Vou de me deixar derrubar
Pelo vento, tranquilamente
Como um dente-de-leãozinho

Onde cair, caí. Onde ficar será
Onde quero que quem lá esteja
Seja lá quem for.

Poema quase platônico

Engraçado como as ideias
Como a argila que a gente molda
Tem um peso tão maior
Que a musa que ali nos posa.

Como a casinha
Que a gente constrói
É tão menor do que
A mansão que a gente espera

Não sei por que
Entre o chão
E o asfalto
A gente se perde tanto.

Vai ver é por gosto
Ou por falta do que não fazer.

Complicadíssima essa história.

Complicadíssima
Essa cabecinha
Genial que
Deus te deu.

(o que se passa por aí?)

Poema oficioso

O que fazer
Quando a faísca
Entre duas mentes
Carece de um diplomata
Entre dois peitos?

Quando prevalecem
O medo ambivalente
A insegurança totalitária
A prudência em cada passo?

O que fazer
Quando um sorriso
Se carimba em nossa alma
Com a força de um decreto
E não se faz valer a lei?

Quem souber que me diga
Por favor, por favor me diga
Antes que eu vá ao cartório
Passar meu coração
Pro nome de quem quiser

A essa altura, fique claro que odeio títulos

Já contei tantos
Uns, dois, três, quatro
Cinco seios onde repousaria
Meu espírito desgastado.

Mas tanto quanto houverem
Números no alfabeto numérico
Haverão ciclos que se abortam,
Que não se fecham antes do fim

Mas então… adianta tentar?
O que tem de diferente
A variável morena
Que se apresenta dessa vez?

Tem tudo, tudo de novo
Que não teve na outra vez
E que nunca haverá de novo
Fora de quem não seja ela.

Tem todos os resultados
Todas as possibilidades
Toda a brasilidade
Que não existe fora dela.

Tem tudo de bom
E tem tudo de mal
Que existe apenas
No limite entre nós dois.